Influência da tecnologia na dinâmica da educação

Influência da tecnologia na dinâmica da educação

Há algum tempo as escolas têm percebido que se adequar à chamada “era digital” deixou de ser simplesmente um diferencial de mercado para se tornar questão de sobrevivência. Aquele modelo tradicional de ensino, no qual as salas de aula são formadas com base na faixa etária e no nível de conhecimento dos alunos e onde é seguida uma hierarquia rígida, em que o professor é tido como o detentor de todo o conhecimento e responsável pela transmissão do conteúdo, está caindo cada vez mais em desuso e novas metodologias estão sendo adotadas na arte de ensinar, tendo como base a utilização de novas tecnologias.

O professor Paulo Gileno Cysneiros, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e autor de diversos artigos relacionados à aplicação da tecnologia na educação, lembra que atualmente o acesso à informação está cada vez mais fácil e que isso faz cair por terra essa posição hegemônica de detentor do conhecimento, que até outrora era atribuída ao educador.

“Hoje a internet acabou com aquele modelo de aula tradicional, em que os alunos aprendem somente o que o professor diz. A internet abre a possibilidade de o aluno buscar qualquer tipo de conhecimento em diversas fontes. Antes o professor era tido como o detentor do conhecimento, mas atualmente esse conhecimento está ao alcance de qualquer um que possua um smartphone. Portanto, hoje o professor tende a ser um orientador do estudo e não simplesmente um expositor de conteúdos. Muitos alunos ainda não sabem utilizar a internet para fazer uma pesquisa, por exemplo. Há muita desinformação espalhada pelos sites, muitos conhecimentos que parecem verdadeiros, mas não são. E o papel atual do professor é orientá-los para que eles tenham uma leitura crítica da informação”, destaca Cysneiros.

Além de possibilitar a busca por informações em diversas fontes digitais e desconstruir o modelo tradicional das aulas, o avanço tecnológico abre discussão sobre a inclusão de novas disciplinas na grade curricular básica dos estudantes, entre elas a linguagem de programação. Alguns estudiosos no assunto argumentam que ensinar código às crianças pode melhorar o raciocínio lógico delas, por um viés computacional, além de ajudá-las a ter uma noção melhor da computação pessoal e da internet. Outra alegação é que a programação é meio que uma linguagem universal, aumentando a capacidade de comunicação e expressão dos cidadãos – ao contrário de um idioma específico, que só é entendido por pessoas de poucos ou de um único país.

Sobre essa questão, Cysneiros acredita que o ensino da linguagem de programação é algo muito específico e, portanto, deve ocorrer apenas a partir do ensino técnico ou superior. “Na minha opinião, a grade curricular não deve mudar muito. Devem ser mantidas somente as disciplinas básicas, como gramática, matemática, etc., que é a formação universal para o ser humano. Acho mais importante ensinar melhor essas matérias básicas do que investir em linguagem de programação, que é um conhecimento muito específico, mais voltado para pessoas que pretendem seguir carreira nessa área”, afirmou.

O professor reconhece que a utilização de recursos tecnológicos no processo de ensino e aprendizado é fundamental, mas frisa que, mais importante do que a escola possuir equipamentos de última geração, é ela capacitar seus profissionais para que estes saibam utilizar os recursos disponíveis. “Não basta ter a tecnologia, mas é precisou saber usá-la. Você pode até ter uma boa infraestrutura tecnológica, mas isso não valerá de nada se você não souber usá-la da melhor forma. Portanto, é preciso que haja profissionais qualificados para utilizar essas novas tecnologias”.

Tendo em vista esse novo cenário da educação, em meio à era digital, algumas instituições de ensino estão, inclusive, adaptando suas salas de aula para atender a essa nova necessidade do aluno em ser não apenas um agente receptor da informação, mas um personagem atuante no processo de educação. No Espírito Santo, a Faesa prepara, para o segundo semestre deste ano, um novo ambiente, com equipamentos modernos e que permitem ao estudante interagir diretamente com o conteúdo a ser trabalhado.

Chamado de “sala da inovação”, o espaço foi projetado para promover a metodologia ativa de educação, que coloca os estudantes como os principais agentes de seu aprendizado. A sala conta com paredes que podem ser usadas como quadro, espaço para colocação de post-its, monitores, além de um quadro digital, semelhante a um grande tablet, onde é possível fazer desenhos com o dedo, entre outros recursos.

“Nesse espaço, os estudantes podem ser divididos em vários grupos e trabalhar individualmente utilizando todos esses recursos. Os equipamentos são interligados a um sistema, por meio do qual o professor consegue acompanhar o que cada grupo está produzindo. Além disso, o trabalho pode ser gravado e utilizado para futuras discussões entre os alunos e os professores”, destacou o coordenador da Unidade de Computação e Sistemas da Faesa, professor Rober Marcone Rosi.

O espaço também terá um tipo de cadeira projetado para atender às novas necessidades dos estudantes. “Essas cadeiras foram importadas da China e facilitarão esse método de ensino. Elas podem ser facilmente deslocadas, pois possuem rodinhas, possuem suporte para apoiar aparelhos eletronicos, como tablets e notebooks, e quando elas se juntam, é formada uma mesa entre os estudantes, onde eles podem apoiar o material de estudo”, explica Rosi.

Segundo o coordenador, todos esses recursos contribuem para desconstruir o modelo tradicional de sala de aula, onde as cadeiras são perfiladas, de modo que os alunos fiquem posicionados como ouvintes e o professor como o divulgador das informações.

“Nós entendemos que o aluno não tem mais aquele perfil passivo, de mero recebedor de conhecimento, e sim que ele precisa ser tratado como personagem principal do conhecimento. Nesse contexto, o professor se coloca como um mentor, para orientar esse estudante. É importante mudar essa cultura que ainda existe entre o professor e o aluno, pois muitos estudantes estão acostumados a esse modelo passivo de ensino e acabam esperando do professor o aprendizado”, ressalta o coordenador.

Rosi explica que, para esse primeiro semestre de utilização desse novo espaço, será disponibilizada uma sala, que funcionará no mesmo esquema dos laboratórios da instituição, ou seja, o professor que necessitar dos recursos do espaço para ministrar sua aula, fará a sua reserva. No entanto, segundo o coordenador, a ideia é futuramente disponibilizar novas salas como essa, para que mais cursos para usufruir de seus recursos simultaneamente.

“Já vem sendo feito há quatro anos um trabalho de formação dos docentes para a utilização dessas novas ferramentas. À medida em que houver demanda, novas salas serão disponibilizadas. Além disso, já temos um projeto para duplicar essa sala que começará a funcionar agora no segundo semestre. Acredito que, por atender a essas novas necessidades do ensino, esse modelo de sala seja a tendência para daqui adiante. Atualmente muitos equipamentos ainda são muito caros, mas acredito que eles terão um preço mais acessível, em um futuro próximo, o que viabilizará a propagação desse modelo de sala de aula”, completa.

Outra ferramenta utilizada pela Faesa que tem como objetivo atender a essas novas exigências da educação é o Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA). Segundo Rosi, o recurso conta com uma interface simples e acessível, que proporciona a interação entre professores e alunos. Além disso, dispõe de conteúdos atualizados, recursos diversificados, atividades que relacionam teoria e prática, suporte técnico on-line para facilitar o melhor aproveitamento dos recursos oferecidos e proximidade da coordenação de curso.

O coordenador explica que as disciplinas à distância oferecidas pela instituição são ministradas por meio desse ambiente virtual. No entanto, a ferramenta também é utilizada por alunos das demais disciplinas, com aulas presenciais. “É uma ferramenta canadense, das mais usadas no mundo na área da educação, que conta com recursos como chats, vídeos, questionários online, entre outros, que facilitam esse contato com o aluno que cursa a disciplina à distância. Além disso, permite a comunicação assíncrona (que não ocorre exatamente ao mesmo tempo) e também a comunicação em tempo real, por meio de chats”, explica.

Ensino à distância
Com o avanço da tecnologia e sua presença cada vez mais constante no ambiente escolar, a modalidade de ensino à distância tem ganhado força e se tornado um aliado importante, principalmente para quem mora longe dos grandes centros ou não tem tempo para frequentar aulas presenciais e precisa de uma flexibilização de tempo para estudo.

É o caso da pedagoga e professora de artes, Silvana Padovani da Silva Ribeiro, moradora de Cariacica. Ela conta que cursou suas duas graduações – Pedagogia e Artes Plásticas – e outras duas pós-graduações por meio dessa modalidade de ensino. Além disso, ela tem planos de fazer um mestrado também à distância.

Segundo Silvana, a opção de realizar os cursos à distância foi motivada pela falta de tempo. “No ano passado cheguei a fazer um curso preparatório para concurso, mas tive muita dificuldade de comparecer às aulas. Além de ser professora, também ajudo meu marido no negócio dele e isso toma muito meu tempo. Com o ensino à distância, posso realizar as atividades online na hora em que achar melhor, seja à noite, depois do serviço, na hora do almoço ou de manhã cedo e isso facilita muito a organizar minha rotina”, ressaltou.

A pedagoga conta que ficou sabendo do ensino à distância por meio de uma colega de trabalho e foi logo atrás de mais informações sobre instituições onde poderia realizar o curso. Segundo ela, uma característica fundamental para quem pretende ingressar nessa modalidade de ensino é ter disciplina.

“Para se ter uma ideia, o curso de Pedagogia que eu fiz começou com 118 alunos e terminou com menos de 50. Portanto não é todo mundo que tem essa disciplina de cumprir todos os prazos estabelecidos pelos professores e dedicar parte do tempo para estudar. Consegui emprego na área cerca de seis meses depois da conclusão do curso, mas porque eu corri atrás. A área da Pedagogia está muito concorrida e tenho colegas que ficaram 3 ou 4 anos sem trabalhar”, contou.

Silvana trabalha há dois anos na Prefeitura de Cariacica, dando aulas de diversas disciplinas para alunos do 1º ao 5º ano do ensino fundamental e aulas de artes para estudantes do ensino médio. Antes disso, ela já havia trabalhado quatro anos para o Governo do Estado.

Para o professor Paulo Gileno Cysneiros, os cursos ministrados à distância são ótimas alternativas para estudantes com dificuldade de participarem de aulas presenciais. No entanto, ele ressalta que muita coisa ainda precisa ser melhorada nesse método de ensino.

“Muitos ambientes virtuais ainda deixam muito a desejar e ainda há espaço para que sejam mais bem desenvolvidos. Alguns cursos à distância são monótonos, você não vê a realização de trabalhos em grupo. Além disso, o ensino à distância ainda é caro e muitas instituições preferem não investir nesses ambientes virtuais”, destacou.

Tutoriais online
Os cursos à distância, no entanto, não são a única forma de ensino não presencial, em que são utilizados recursos online para transmitir conhecimento. Hoje em dia, por exemplo, é muito comum a produção de vídeos onde é ensinado o passo a passo de uma infinidade de tarefas, desde as mais básicas do dia-a-dia, até as mais complexas, onde é exigido do internauta um conhecimento básico acerca do assunto abordado, além de algumas habilidades complementares. Esses vídeos são popularmente conhecidos como tutoriais online.

Na verdade, o tutorial é uma ferramenta de ensino e aprendizagem que pode ser apresentada de outras formas além do vídeo – como textos ou programas de computador, por exemplo – e pode ou não conter imagens. O objetivo básico é auxiliar o processo de aprendizagem, exibindo o passo a passo do funcionamento de algo.

Os tutoriais são muito comuns na informática, onde são usados para ensinar como programas ou aplicativos funcionam e como podem ser operados por usuários iniciantes. Mas também podem ser feitos para ensinar alguém a desempenhar tarefas básicas do dia-a-dia – como fazer um reparo em casa, por exemplo -, montar algum objeto, produzir artesanato, entre uma infinidade de possibilidades. O tutorial pode ser entendido como uma espécie de “manual de instruções”, para que um usuário, a partir de explicações simplificadas, chegue ao resultado esperado.

Com o desenvolvimento da tecnologia e a consequente facilidade de produzir e divulgar materiais audiovisuais na internet, milhares de vídeos podem ser encontrados na grande rede – especialmente no YouTube. Esses vídeos podem ser produzidos tanto por pessoas “comuns”, que simplesmente decidem compartilhar algum conhecimento, ou por empresas especializadas nesse tipo de produção.

Uma dessas organizações é a produtora Manual do Mundo Comunicação, especializada em entretenimento educativo e em conteúdos que despertam a curiosidade e criatividade. Desde 2008 no mercado, a produtora é responsável por um dos principais canais de ciência e how-to do YouTube no Brasil, o Manual do Mundo.

Em sua descrição no site, a empresa diz que produz vídeos educativos de treinamento e para a internet, além de produzir objetos educacionais digitais para editoras de livros pedagógicos. Também oferece palestras sobre inovação na educação e bom uso de recursos digitais nas escolas.

Entre os vídeos disponíveis no site da empresa, estão tutoriais que ensinam, por exemplo, a fazer um hand spinner magnético e um lápis que canta, a explodir ursinhos quimicamente, a esmagar uma garrafa usando um avião, entre muitos outros.

Fonte: Folha Vitória

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